terça-feira, 9 de junho de 2015

Malditos


Este período decidi ler e apresentar o livro intitulado "Malditos", de Ricardo J. Rodrigues, que trata de histórias de homens e de lobos, tal como o subtítulo indica.

O autor nasceu no ano de 1976 e é jornalista desde 1999.  As suas histórias são normalmente sobre direitos humanos e tudo que é ligado a contra-cultura.

Bem, vou começar por dizer que o livro não foi nada do que eu estava a espera, pois trata-se mais de uma reportagem do que uma história em si. Quero dizer, não tem praticamente sentido nenhum, tal como a narração que faz falta, e os diálogos que raramente se encontram; isto só na minha opinião, mas gostaria que mais pessoas lessem o livro e me dessem a opinião deles, porque é sempre importante ver um trabalho de todas as perspetivas possíveis. 
O livro está dividido em quatro grandes capítulos: Lobos, Homens, Guerra e Paz, e cada um possui uma história diferente, mas que se ligam entre elas.

Não gostei do livro, e já o tentei ler várias vezes, para ver se isso ia mudar a minha opinião. Quando comecei a ler o primeiro capítulo gostei bastante, mas ao longo das paginas torna-se um bocado cansativo de ler, pois, como já tinha dito, só há mesmo muita descrição e pouca narração. 
Em Lobos, o narrador conta a história de um lobo que foi expulso da alcateia, e a tentativa dele de sobreviver por conta própria, o que não foi muito fácil.
Tal como em Homens, a história contada é basicamente sobre a relação de um rapaz com o seu pónei que tem desde criança, e a angústia dele quando o perdeu aos lobos. 
Guerra e Paz são dois conceitos totalmente opostos, mas, no final do livro tudo acaba de uma forma razoável e o final é um feliz.


O comentário de Bilgee, um chefe de um tribo da Mongólia, para o Jiang Rong, um escritor chinês, enquanto os dois observavam uma alcateia a cercar uma manada de gazelas no ano de 1966 (incluído no livro Long Tuteng do escritor estrangeiro) foi também incluído em Malditos, tendo mais ou menos o mesmo tema do livro. 
«Na guerra, disse o velho, os lobos são mais espertos que os homens. Nós, os Mongóis, aprendemos com eles a caçar, a fazer cercos, até a fazer a guerra. Não há alcateias de lobos onde vocês, Chineses, vivem, e por isso nunca aprenderam o que é a verdadeira guerra. Não podes ganhar uma guerra só porque tens muita terra e muitos soldados. Não, o que realmente interessa é se és lobo ou carneiro.»

Em relação ao comentário em cima referido só tenho para dizer que Malditos apresenta exatamente o mesmo conceito: a diferença entre os lobos e os carneiros, mas acho que, se o livro estivesse escrito de uma outra maneira, até podia gostar, pois a história em si não é do pior. Precisa mesmo só de alguns retoques e mais atenção na organização do mesmo.

Para acabar, volto a dizer que fiquei decepcionada com a leitura do livro, pois não foi mesmo o que eu estava a espera, mesmo que alguns aspetos sejam bem apresentados.
Recomendo o livro, mas apenas porque estou curiosa em relação a opinião das outras pessoas. 



domingo, 7 de junho de 2015

Eu, Bocage...

Eu, Bocage, nasci a 15 de setembro de 1765, em Setúbal, no reinado de D. José, em pleno século das luzes. Vivia-se a transição de um mundo velho e absolutista para um mundo aberto a novas ideias e formas de pensar, e talvez essa transição se deva às minhas ideias pré-românticas e neoclássicas.
     O meu pai era advogado e tinha por nome José Luís Soares de Barbosa. A minha mãe era de origem francesa e chamava-se Maria Joaquina Xavier Lustoff du Bocage.
     A minha infância foi carregada de mágoas. O meu pai foi preso quando eu tinha seis anos e a minha mãe morreu quando eu tinha apenas dez anos (“Aos dois lustros a morte devorante // Me roubou, terna Mãe, teu doce agrado”). Não foi fácil para mim ultrapassar todas estas dificuldades, por isso decidi tornar-me independente o mais depressa possível.
Na minha adolescência, estudei várias matérias como, por exemplo, o latim. Estudei este idioma durante vários anos , o que permitiu tornar-me numa pessoa mais instruída.
     Em 1781, apresentei-me ao serviço militar no Regimento da Infantaria de Setúbal e tive como meu comandante um sargento-mor entendido em literatura e autor de um prefácio às obras de Reis Quita.
     Em 1783, alistei-me na Companhia de Guardas-Marinhas, em Lisboa, onde tive acesso a lições de geometria, aritmética e língua francesa. Posteriormente, abandonei esta Companhia, sendo mais tarde designado guarda-marinha da Armada do Estado da Índia. Viajei para o Oriente na nau Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena, em 1786, com destino ao Rio de Janeiro e à ilha de Moçambique.
     Corria o ano de 1787, quando resolvi alistar-me na Ala Real da Marinha, em Pangim.
     Passados dois anos (1789), fui nomeado tenente de infantaria da 5ª Companhia do Regimento da Guarnição da Praça de Damão. Fui destacado para uma missão em Goa, embarcando na fragata de Santa Ana. Chegado ao destino, decidi embarcar rumo a Macau, deixando para trás a missão que me tinha sido atribuída. Nesse mesmo ano, foi fundada a Nova Arcádia ou Academia das Belas-Letras. Tornei-me membro desta Academia e com isso passaram a chamar-me Elmano Sadino.
     Regressei a Setúbal, a minha terra natal, na esperança de encontrar a mulher que eu pensei ser a mais indicada para mim, Gertrudes. Todavia estava redondamente enganado, pois encontrei-a já casada com o meu irmão. Era esta a Gertrúria cuja beleza e traição eram referidas em alguns dos meus poemas. (“ Da pérfida Gertrúria o juramento // Parece-me que estou inda escutando, // E que inda ao som da voz suave e brando // Encolhe as asas , de encantado , o vento”).
     Fui reconhecido como poeta ao publicar o Tomo I das Rimas no final do século XVIII (1791).
     Acabei por ser expulso da Nova Arcádia por ter participado em vários conflitos, nomeadamente com o meu arqui-inimigo, o Padre José Agostinho de Macedo.
     De seguida, publiquei a 2ª edição do Tomo I das Rimas, o Elogio Poético à Admirável Intrepidez com que Domingo 24 Agosto de 1794 e Subiu o Capitão Lunardi no Balão Aerostático.
     Entre 1795 e 1797, filiei-me na Maçonaria contra a vontade de Pina Manique, Intendente-Geral das Polícias do Reino, e entreguei-me cada vez com mais empenho aos ideais da Revolução Francesa (“Liberdade, onde estás? Quem te demora? //Movam nosso grilhões tua piedade; //Nosso númen tu és, e glória, e tudo, //Mãe de génio e prazer , ó Liberdade!”). Ainda em 1797, radicalizei a minha opinião a favor dos ideais iluministas com o objetivo de me tornar uma das maiores, se não a maior figura do Iluminismo Português, mas fui preso por ordem de Pina Manique na prisão do Limoeiro, sendo-me atribuída a autoria de “papéis ímpios, sediciosos e críticos” (“ Em sórdida masmorra aferrolhado, // De cadeias aspérrimas cingido, // Por ferozes contrários perseguido, // Por línguas impostoras criminado”).
     Com a ajuda e empenho do meu admirador José de Seabra da Silva, ministro de Estado dos Negócios do Reino, passei para o Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, onde, graças ao ambiente propício ao estudo e à reflexão, comecei a traduzir As Metamorfoses, do poeta latino Ovídio e também outros textos importantes. No último dia do ano fui libertado, passando a ser mais cauteloso na manifestação dos meus ideais revolucionários.
     Em 1799, publiquei o Tomo II das Rimas e iniciei o meu trabalho como tradutor, revisor de provas e encarregado de aperfeiçoar textos alheios, na Oficina Tipográfica do Arco do Cego.
     Passado um ano, publiquei a 3ª edição do Tomo I das Rimas e a tradução do poema didático Os Jardins ou a Arte de Aformosear as Paisagens, de Delille.

     Em 1802, o meu pai faleceu e escrevi a minha famosa sátira “Pena de Talião” contra o padre José Agostinho de Macedo. Dois anos depois, surgiram sintomas da minha doença (um aneurisma nas carótidas) e lutei contra grandes dificuldades financeiras. Publiquei ainda o Tomo III das Rimas, dedicado à Marquesa de Alorna, poetisa pré-romântica e minha protetora.
     Em 1805, o meu estado de saúde agravou-se bastante, mas, mesmo assim, publiquei as minhas últimas obras cujos títulos são esclarecedores: Improvisos de Bocage na sua Mui Perigosa Enfermidade, Dedicados a seus Bons Amigos e Coleção de Novos Improvisos de Bocage na sua Moléstia, com as Obras que lhe Foram Dirigidas por Vários Poetas Nacionais.
     Na manhã de 21 de Dezembro, acabei por morrer e fui sepultado no dia seguinte “ domingo de muita chuva e frio, no cemitério da igreja paroquial das Mercês” (“Já Bocage não sou!... À cova escura//Meu estro vai parar desfeito em vento... //Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento// Leve me torne sempre a terra dura.”).
     Este fui eu, Bocage! O poeta e escritor conhecido por ser um pré-romântico e neoclássico. Decidi aproveitar o facto de nascer no século das luzes para me tornar no homem que não se deixava ficar calado. Eu sentia que devia ter voz e opinião e foi isso que fiz, mesmo sabendo que ia ser certamente julgado pela comunidade por contestar algo que não concordava. Este fui eu e sinto orgulho em ter sido quem fui …