Eu, Bocage, nasci a 15 de
setembro de 1765, em Setúbal, no reinado de D. José, em pleno século das luzes.
Vivia-se a transição de um mundo velho e absolutista para um mundo aberto a novas
ideias e formas de pensar, e talvez essa transição se deva às minhas ideias
pré-românticas e neoclássicas.
O meu pai era advogado e tinha por
nome José Luís Soares de Barbosa. A minha mãe era de origem francesa e chamava-se
Maria Joaquina Xavier Lustoff du Bocage.
A minha infância foi carregada de
mágoas. O meu pai foi preso quando eu tinha seis anos e a minha mãe morreu
quando eu tinha apenas dez anos (“Aos dois lustros a morte devorante // Me
roubou, terna Mãe, teu doce agrado”). Não foi fácil para mim ultrapassar todas estas dificuldades,
por isso decidi tornar-me independente o mais depressa possível.
Na minha adolescência, estudei várias matérias como, por exemplo, o latim.
Estudei este idioma durante vários anos , o que permitiu tornar-me numa pessoa
mais instruída.
Em 1781, apresentei-me ao serviço
militar no Regimento da Infantaria de Setúbal e tive como meu comandante um
sargento-mor entendido em literatura e autor de um prefácio às obras de Reis
Quita.
Em 1783, alistei-me na Companhia de
Guardas-Marinhas, em Lisboa, onde tive acesso a lições de geometria, aritmética
e língua francesa. Posteriormente, abandonei esta Companhia, sendo mais tarde
designado guarda-marinha da Armada do Estado da Índia. Viajei para o Oriente na
nau Nossa Senhora da Vida, Santo António
e Madalena, em 1786, com destino ao Rio de Janeiro e à ilha de Moçambique.
Corria o ano de 1787, quando resolvi
alistar-me na Ala Real da Marinha, em Pangim.
Passados dois anos (1789), fui
nomeado tenente de infantaria da 5ª Companhia do Regimento da Guarnição da
Praça de Damão. Fui destacado para uma missão em Goa, embarcando na fragata de Santa Ana. Chegado ao destino, decidi embarcar
rumo a Macau, deixando para trás a missão que me tinha sido atribuída. Nesse
mesmo ano, foi fundada a Nova Arcádia ou Academia das Belas-Letras. Tornei-me membro
desta Academia e com isso passaram a chamar-me Elmano Sadino.
Regressei a Setúbal, a minha terra
natal, na esperança de encontrar a mulher que eu pensei ser a mais indicada
para mim, Gertrudes. Todavia estava redondamente enganado, pois encontrei-a já
casada com o meu irmão. Era esta a Gertrúria cuja beleza e traição eram
referidas em alguns dos meus poemas. (“ Da
pérfida Gertrúria o juramento // Parece-me que estou inda escutando, // E que
inda ao som da voz suave e brando // Encolhe as asas , de encantado , o vento”).
Fui reconhecido como poeta ao publicar o
Tomo I das Rimas no final do século
XVIII (1791).
Acabei por ser expulso da Nova
Arcádia por ter participado em vários conflitos, nomeadamente com o meu
arqui-inimigo, o Padre José Agostinho de Macedo.
De
seguida, publiquei a 2ª edição do
Tomo I das Rimas, o Elogio Poético à Admirável Intrepidez com
que Domingo 24 Agosto de 1794 e Subiu
o Capitão Lunardi no Balão Aerostático.
Entre 1795 e 1797, filiei-me na Maçonaria
contra a vontade de Pina Manique, Intendente-Geral das Polícias do Reino, e
entreguei-me cada vez com mais empenho aos ideais da Revolução Francesa (“Liberdade, onde estás? Quem te demora? //Movam
nosso grilhões tua piedade; //Nosso númen tu és, e glória, e tudo, //Mãe de
génio e prazer , ó Liberdade!”). Ainda em 1797, radicalizei a minha opinião
a favor dos ideais iluministas com o objetivo de me tornar uma das maiores, se
não a maior figura do Iluminismo Português, mas fui preso por ordem de
Pina Manique na prisão do Limoeiro, sendo-me atribuída a autoria de “papéis
ímpios, sediciosos e críticos” (“ Em
sórdida masmorra aferrolhado, // De cadeias aspérrimas cingido, // Por ferozes
contrários perseguido, // Por línguas impostoras criminado”).
Com a ajuda e empenho do meu admirador
José de Seabra da Silva, ministro de Estado dos Negócios do Reino, passei para
o Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, onde, graças ao ambiente
propício ao estudo e à reflexão, comecei a traduzir As Metamorfoses, do poeta latino Ovídio e também outros textos
importantes. No último dia do ano fui libertado, passando a ser mais cauteloso
na manifestação dos meus ideais revolucionários.
Em 1799, publiquei o Tomo II das Rimas e iniciei o meu trabalho como
tradutor, revisor de provas e encarregado de aperfeiçoar textos alheios, na
Oficina Tipográfica do Arco do Cego.
Passado um ano, publiquei a 3ª
edição do Tomo I das Rimas e a
tradução do poema didático Os Jardins ou
a Arte de Aformosear as Paisagens, de Delille.
Em 1802, o meu pai faleceu e escrevi a
minha famosa sátira “Pena de Talião” contra o padre José Agostinho de Macedo.
Dois anos depois, surgiram sintomas da minha doença (um aneurisma nas carótidas)
e lutei contra grandes dificuldades financeiras. Publiquei ainda o Tomo III das
Rimas, dedicado à Marquesa de Alorna,
poetisa pré-romântica e minha protetora.
Em 1805, o meu estado de saúde agravou-se
bastante, mas, mesmo assim, publiquei as minhas últimas obras cujos títulos são
esclarecedores: Improvisos de Bocage na
sua Mui Perigosa Enfermidade, Dedicados a seus Bons Amigos e Coleção de
Novos Improvisos de Bocage na sua Moléstia, com as Obras que lhe Foram
Dirigidas por Vários Poetas Nacionais.
Na manhã de 21 de Dezembro, acabei por
morrer e fui sepultado no dia seguinte “ domingo de muita chuva e frio, no
cemitério da igreja paroquial das Mercês” (“Já Bocage não sou!... À cova escura//Meu estro vai parar desfeito
em vento... //Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento// Leve me torne sempre a
terra dura.”).
Este fui eu, Bocage! O poeta e escritor conhecido por ser um
pré-romântico e neoclássico. Decidi aproveitar o facto de nascer no século das
luzes para me tornar no homem que não se deixava ficar calado. Eu sentia que
devia ter voz e opinião e foi isso que fiz, mesmo sabendo que ia ser certamente
julgado pela comunidade por contestar algo que não concordava. Este fui eu e
sinto orgulho em ter sido quem fui …